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sexta-feira, 4 de junho de 2010

O ovo e a galinha


x Clarice Lispector

De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.
O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.
Ao ovo dedico a nação chinesa.
O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.
O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos ? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.
O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “O rosto”, morre; por ter esgotado o assunto.
Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.
Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir.
E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro de galinha é como sangue.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.
Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. É com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece.
De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo.
A galinha não queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser “feliz”. A que não percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que não sabia perder-se a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar, a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria. A que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um “eu” sem trégua. Nelas o “eu” é tão constante que elas já não podem mais pronunciar a palavra “ovo”. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas não estivessem tão distraídas, se prestassem atenção à grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.
Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.
E eis que não entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive uma natureza adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.
Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções recebidas e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido, e ele não suportava mais não ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saía de um restaurante. Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na sua revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas não incluíam nenhuma explicação. Houve outro também eliminado, porque achava que “a verdade deve ser corajosamente dita”, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele compreendera que ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.
Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar a minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações na Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo de ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.
Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.
Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como justo. Eles me querem preocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a idéia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! Com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.
Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. “Falai, falai”, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções, estou tão cansada.
Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifício. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

capitalismo e sexualidades

foto : Yaskara Guelpa

Capitalismo, sexualidades e atitudes políticas. O que isso tem a ver conosco?[1]

x marian pessah[2]


primeiro em língua brasileira

Tem sentido falar em capitalismo sem antes falarmos em patriarcado? Tem sentido falar em patriarcado sem resignificá-lo em seus vínculos com o capitalismo? De maneira simplificada, o patriarcado é uma ideologia/ um sistema/ uma prática de dominação e controle dos homens sobre as mulheres. A primeira idéia que quero expressar é que o patriarcado foi sendo gerado muito antes do capitalismo e se mantém até nossos dias; até quando a humanidade chega ao sistema capitalista, que se adapta ao patriarcado como luva em plena estação de inverno.

Como menciona Frederic Engels na sua grande obra: A origem da família, da propriedade privada e do Estado, referindo-se às formas pré-capitalistas de organização da produção mais primitivas:

“(...) com o aparecimento dos rebanhos e das demais riquezas novas, se produziu uma revolução na família. A indústria[3] sempre foi assunto do homem; os meios para sua produção eram manufaturados por ele e eram da sua propriedade. Os rebanhos constituíam a nova indústria; no início sua domesticação e depois a sua manutenção, eram obra do homem. Por isso o gado pertencia a ele assim como as mercadorias e os escravos que eram adquiridos por intermédio de sua troca. Todo o excedente que agora era obtido com a produção pertencia ao homem; a mulher participava do seu consumo, mas não tinha nenhuma participação em sua propriedade. (...) A divisão do trabalho na família foi a base para a distribuição da propriedade entre o homem e a mulher.”

A partir desse ponto de partida colocado por Engels e considerando que um sistema econômico se define pela maneira como as pessoas se relacionam para produzir, bem poderíamos estar falando não somente em classes sociais, mas também, em classes sexuais. Mais ainda, se todo o excedente produzido fica em poder dos homens, xs herdeirxs vão precisar estar bem definidos, assim nasce a necessidade do casamento heterossexual, para que os homens controlem “suas” mulheres e assim garantam a paternidade de seus/suas filhos/as, para dar seu sobrenome. Do mesmo modo nasce a monogamia obrigatória, pois se as mulheres estiverem com vários homens, não seria possível definir a paternidade. Para isso se faz necessário criar um dispositivo de vigilância, a partir de agora a moral será uma incrível ferramenta que contará com uma fiel parceira : a igreja.

Estamos, portanto, pensando agora num patriarcado, capitalista, em que a prostituição que já existia das mais diversas formas, para garantir o prazer sexual dos patriarcas e a monogamia, assume um novo caráter. É junto ao capitalismo que os corpos das mulheres (e de alguns homens não vamos esquecer) começam a ser trocados por moeda, transformam-se em mercadoria, categoria específica do sistema capitalista. Também, este “novo” sistema, estaria sendo um grande caldo de cultivo da moral homo-lesbofóbica, pois existindo, é uma bela inimiga do sistema reprodutor, isto é do sexo focado na reprodução e na moral familiar.

Parece uma conseqüência lógica, uma equação matemática que as relações familiares, como microcosmos da organização econômica, tenham convergido para o formato do casal heterossexual e monogâmico, com um papel fundamental na manutenção da ideologia capitalista.

Dessa forma, do ponto de vista econômico, entende-se por capitalismo uma relação de domínio da burguesia sobre o proletariado. E entende-se por família hetero-monogâmica, uma relação entre o homem e a mulher, onde é ele quem trabalha fora de casa, e é ela quem faz as tarefas do lar, sem horário determinado. Atualmente, grande parte das mulheres também trabalham fora de casa, mas essa atividade, não as exime de suas tarefas domésticas, pelo contrário, duplica a jornada laboral.

Por isso, em 1843, quando Flora Tristan escreveu o seu importante livro a União operária, já dizia que as mulheres somos as proletárias do proletariado. Infelizmente, 167 anos depois, isso segue tão atual como na época. Interessante se perguntar pelos avanços acontecidos em todos esses anos, mas isso ficará para uma próxima vez, quem sabe uma linda avaliação sobre os feminismos e a sua incidência na sociedade. Também, fica em aberto a provocação e o chamado.

Retomando. O que é o casamento? Um contrato social e econômico – de compra e venda? - assinado perante o Estado e/o a Igreja. Quando uma mulher se casa, passa de propriedade do pai, para o marido. Ou não é assim que acontece nas Igrejas? Sejam essas católicas, judias ou muçulmanas.

As mulheres entram caminhando pelo tapete vermelho do braço do pai até os agora maridos que aguardam no altar. Para chegar até esse momento sublime elas/nós tem/temos engolido o conto romântico de amor para toda a vida, da pessoa escolhida, de não ficar sozinhas, nem solteironas. Do medo de não ser amadas. O capitalismo, hoje muito bem representado por mega empresários, não fica de lado e faz o seu aporte ligando grandes e caros vestidos e elegantérrimas festas com mais amor ainda. Chegando a uma bela equação, quanto mais luxo, mais amor. Os olhos deste sistema parecem com os do tio Patinhas, em lugar de íris tem o símbolo $.

Cabe nos perguntar qual a relação entre amor e Estado. Se não fosse por todas estas coisas da necessidade da herança, de controle e domínio, não haveria necessidade de casamento, de testemunhar amor ante ninguém. Quando se assina um contrato numa empresa, por exemplo, nos informam quantas horas serão acordadas de trabalho, quais os feriados, ou seja, somos avisadas sobre direitos e obrigações. No contrato matrimonial, nós mulheres devemos trabalhar os 365 dias do ano, limpar a casa, manter a ordem, ter crianças e cuidar delas, se responsabilizar por sua educação. E como se não bastasse isso, também nos é exigido um corpo maravilhoso além de fazer sexo todas as noites que o marido o desejar. Como é o nome se não faxineira sem salário, proletária do proletariado, ou eterna escrava?

Qual o sentido de manter tudo isso intacto hoje? Que o movimento LGBTT – agora formalmente com o L na frente – lute pelo casamento, que não é mais que reproduzir o sistema e aqueles sonhos de consumo feitos pelo sistema, qual a função do casamento entre pessoas que não tem bens? Habitar o sono feito para oprimir? Qual a atitude política do movimento que deveria ser de libertação, e não de continuação, para dar uma melhoradinha nas opressões de maneira que tudo mude para tudo ficar igual?

Felizmente, teve uma criatura muito inteligente, que em 1949, escreveu um livro de dois volumes, importantíssimo, que se chamou O segundo sexo. Sim, Simone de Beauvoir. Ai deixou impressa a sua grande e importante frase: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Ela também foi uma importante referência com a sua vida, no plano intelectual, e na prática, pois junto com o seu companheiro, Jean Paul Sartre, com quem não só nunca se casou, nem sequer morou junto, enfrentou o desafio de construir novos e variados amores e núcleos afetivos.

Poucos anos depois, as FMF - Feministas Materialistas Francesas, da mesma turma que a Simone fazia parte dirão : “...o ponto central do pensamento, radica em que nem os homens, nem as mulheres são um grupo natural ou biológico, não possuem nenhuma essência especifica nem identidade a qual defender e não se definem pela cultura, a tradição, a ideologia, nem pelos hormônios, senão, simplesmente por uma relação social, material concreta e histórica. Esta relação é uma relação de classe ligada ao sistema de produção ao trabalho e a exploração de uma classe por outra”[4].

Uns anos mais tarde, Monique Wittig, também da turma das FMF, escreverá um texto: Ninguém nasce mulher e ficará muito conhecida a sua frase as lésbicas não somos mulheres.

“... o lesbianismo oferece de momento, a única forma social na qual podemos viver livremente. Lesbiano é o único conceito que conheço que está mais além das categorias de sexo (mulher e homem), pois o sujeito designado (lesbiano) não é uma mulher, nem economicamente, nem politicamente, nem ideologicamente”[5].

“Somos prófugas de nossa classe, da mesma maneira que os escravos americanos fugitivos o eram quando se escapavam da escravidão e se libertavam”.

“Temos que compreender que o conflito de classes não é eterno e que para ultrapassá-lo, é necessário destruir politicamente, filosoficamente, e simbolicamente as categorias de homes e de mulheres”.

Agora que temos algumas ferramentas de análise na mão, seria interessante nos colocarmos como lésbikas polítikas, não somente como mulheres homo-afetivas como algumas pessoas gostam de nos chamar. É necessário ver o potencial revolucionário que temos em nós, chegou a hora de tirarmos aquelas luvas, e tomar a realidade com as nossas próprias mãos. Dar um basta, vestir as nossas próprias roupas de lésbikas, seres dissidentes deste patriarcado capitalista. É importante tomar uma atitude política contraria ao casamento monogâmico e reprodutor das normas heterossexuais. Nós não aceitamos este sistema econômico e entendemos que não faz sentido o casamento que venha a referendar através dos nossos corpos esse sistema opressor.

Temos a faca e o queijo na mão para dizer não a essa monogamia obrigatória que tanto nos oprime e cuja função básica é a reprodução do sistema do capital e da propriedade privada, agora nos corpos, também das mulheres, por nós, mulheres.

Não há movimento possível sem a existência de utopia, objetivos e sonhos. Vamos lá, o céu esta aqui para voar, sonhar e experimentar a liberdade que nos da o fato de sermos anormais, lésbikas polítikas.

Referências bibliográficas

Beauvoir, Simone de. O segundo sexo, Ed. Gallimard, Paris, 1976.

Engels, Friederich El origen de la familia, la propiedad privada y el Estado. Editorial Progreso, Moscú.

Falquet, Jules e Curiel, Ochy (org)- El patriarcado desnudo, ed. Brecha Lesbica, 2005.

Tristán, Flora La Unión obrera, Ed. Fontanara.

Wittig, Monique. Ninguém nasce mulher in Em rebeldia – da bloga ao livro, Porto Alegre, 2009.

Agora em língua argentina

Capitalismo, sexualidades y actitudes políticas. ¿Qué tiene que ver con nosotras?[6]


x marian pessah[7]

¿Tiene sentido hablar de capitalismo sin mencionar antes al patriarcado? ¿Tiene sentido hablar del patriarcado sin resignificarlo en sus vínculos con el capitalismo? De manera simplificada, el patriarcado es una ideología/ un sistema/ una práctica de dominación y control de los hombres sobre las mujeres. La primera idea que quiero expresar, es que el patriarcado nació mucho antes que el capitalismo y se mantiene hasta nuestros días; hasta que la humanidad llega al sistema capitalista y entra en el patriarcado, como guante en plena estación invernal.

Como menciona Frederic Engels en su gran obra: El origen de la familia, la propiedad privada y el Estado, refiriéndose a las formas pre-capitalistas de organización de la producción más primitivas:

“...Y con la aparición de los rebaños y la demás riquezas nuevas, se produjo una revolución en la familia. La industria había sido siempre asunto del hombre; los medios necesarios para ella eran producidos por él y propiedad suya. Los rebaños constituían la nueva industria; su domesticación al principio y cuidado después, eran obra del hombre. Por eso el ganado le pertenecía, así como las mercancías y los esclavos que obtenía a cambio de él. Todo el excedente que dejaba ahora la producción pertenecía al hombre; la mujer participaba en su consumo, pero no tenía ninguna participación en su propiedad. (…) La división del trabajo en la familia había sido la base para distribuir la propiedad entre el hombre y la mujer.”

A partir de ese punto de partida planteado por Engels y considerando que un sistema económico se define por la manera como las personas se relacionan para producir, debemos hablar no solamente en clases sociales, sino también, en clases sexuales. Veamos cómo sigue, si todo el excedente producido queda en poder de los hombres, lxs herederxs van a precisar estar bien definidxs, así nace la necesidad del casamiento heterosexual, para que los hombres controlen a “sus” mujeres y poder garantizar la paternidad de sus hijos/as, para darles su apellido. Del mismo modo nace la monogamia obligatoria, porque si las mujeres están con varios hombres, no es posible identificar al pater-padre. Ahora se hace necesario crear un dispositivo de vigilancia, la moral será una increíble herramienta que contará con una fiel ayudante : la iglesia.

Estamos hablando de un patriarcado-capitalista, donde la prostitución que ya existía de las más diversas formas para asegurar el placer sexual de los patriarcas, y la monogamia asumen un nuevo carácter. Junto al capitalismo, los cuerpos de las mujeres (y de algunos hombres) comienzan a ser cambiados por moneda, transformándose en mercaderías, categoría específica del sistema capitalista. Este “nuevo” sistema, está siendo un gran caldo de cultivo de la moral homo-lesbofóbica, porque existiendo personas gays o lesbianas, son bellas enemigas y un terrible peligro para el sistema reproductor del sexo centrado en la reproducción y en la moral familiar.

Parece una consecuencia lógica, una ecuación matemática que las relaciones familiares, como microcosmos de la organización económica, hayan convergido para el formato de pareja heterosexual y monogámica, con un papel fundamental en la manutención de la ideología capitalista.

De esta forma, del punto de vista económico, se entiende por capitalismo una relación de dominación de la burguesía sobre el proletariado. Y se entiende por familia hetero-monogámica, una relación entre el hombre y la mujer, en la cual, es él quien trabaja fuera de la casa, y es ella quien hace las tareas del hogar, sin horario determinado. Actualmente, gran parte de las mujeres también trabajan fuera de casa, solo que esa actividad no las exime de las tareas domésticas, por el contrario, duplica su jornada laboral.

Por eso, en 1843, cuando Flora Tristán escribió su importante libro La Unión obrera, ya decía que las mujeres somos las proletarias del proletariado. Lamentablemente, 167 años después, eso sigue tan actual como entonces. Sería interesante preguntarnos por los avances realizados en todos estos años, sería importante hacer una minuciosa evaluación sobre los feminismos y su incidencia en la sociedad.

Continuemos. ¿Que es el casamiento? Un contrato social y económico – ¿de compra y venta? - firmado frente al Estado y/o la Iglesia. Cuando una mujer se casa, pasa de ser propiedad del padre, para el marido. ¿O no es así que sucede en las Iglesias? Sean estas católicas, judías o musulmanas.

Las mujeres entran caminando sobre la alfombra roja del brazo del padre hasta los ahora maridos que aguardan en el altar. Para llegar hasta ese momento sublime ellas/nosotras tienen/tenemos que habernos tragado el cuento romántico del amor para toda la vida, de la persona elegida, de no quedarnos solas, ni solteronas. Del miedo de no ser amadas. El capitalismo, hoy en día está muy bien representado por mega empresarios que no se quedan atrás. Dejan su importante marca con grandes y caros vestidos y elegantísimas fiestas; relacionando lujo con amor. Los ojos de este sistema se parecen a los del Tío Rico, en lugar de iris tiene el signo $.

Cabe preguntarnos cuál es la relación entre amor y Estado. Si no fuese por todas estas cosas de la necesidad de herencia, control y dominio, no habría necesidad de casamiento, de atestiguar amor ante nadie. Cuando se firma un contrato con una empresa, por ejemplo, enseguida se informa cuántas horas serán de trabajo y cuáles los días libres, somos avisadas sobre derechos y obligaciones. En un contrato matrimonial, las mujeres debemos trabajar los 365 días del año, limpiar la casa, mantener el orden, tener hijxs y cuidarlxs, responsabilizarse por su educación. Y como si no fuera suficiente, también nos es exigido un cuerpo maravilloso y estar siempre listas para tener sexo todas las noches que el marido lo desee. ¿Cómo es el nombre de la mujer cazada? Presa, mucama sin sueldo, proletaria del proletariado, eterna esclava.

¿Cuál es el sentido de mantener todo esto intacto hoy? Que el movimiento LGBTT – ahora formalmente con la L al frente[8] – luche por obtener el casamiento, que no hace más que reproducir el sistema y los sueños de consumo concebidos por el sistema, ¿cuál es la función del casamiento entre personas que no tienen bienes? ¿Cuál la de habitar el sueño creado para oprimir? ¿Cuál es la actitud política del movimiento que debería ser de libertación, y no de continuación, para amenizar las opresiones de manera que todo cambie para que todo continúe igual?

Felizmente, existió una criatura muy inteligente, que en 1949, escribió un libro de dos volúmenes importantísimo, que se llamó El segundo sexo. Sí, me refiero a Simone de Beauvoir. Ahí dejó impresa su grande e importante frase: “Nadie nace mujer, llega a serlo”. Ella también fue una importante referencia con su vida, en el plano intelectual, y en la práctica. Junto con su compañero, Jean Paul Sartre, con quien nunca se casaron ni vivieron juntxs; enfrentaron el desafío de construir nuevos y variados amores y núcleos afectivos.

Pocos años después, las FMF - Feministas Materialistas Francesas, del mismo grupo que Simone formaba parte, dirán : “...el punto central del pensamiento, radica en que ni los hombres, ni las mujeres son un grupo natural o biológico, no poseen ninguna esencia especifica ni identidad la cual defender y no se definen por la cultura, la tradición, la ideología, ni por las hormonas, sino, simplemente por una relación social, material concreta e histórica. Esta relación es una relación de clase ligada al sistema de producción al trabajo y a la explotación de una clase sobre otra”[9].

Unos años más tarde, Monique Wittig, también del grupo de las FMF, escribirá un texto: Nadie nace mujer y se hará muy conocida su frase las lesbianas no somos mujeres.

“... pues el lesbianismo ofrece de momento, la única forma social en la cual podemos vivir libremente. Lesbianidad es el único concepto que conozco que está mas allá de las categorías de sexo (mujer y hombre), pues el sujeto designado (lesbiano) no es una mujer, ni económicamente, ni políticamente, ni ideológicamente.”[10].

“Somos prófugas de nuestra clase, de la misma manera en que los esclavos americanos fugitivos lo eran cuando se escapaban de la esclavitud y se liberaban.”.

“Tenemos que comprender que el conflicto de clases no es eterno y que para superarlo, es necesario destruir políticamente, filosóficamente, y simbólicamente las categorías de hombres y de mujeres”.

Ahora con algunas herramientas de análisis en las manos, seria interesante posicionarnos como lesbianas polítikas, y no mujeres homo-afectivas como a algunas personas les gusta llamarnos/se. Es necesario abrir los ojos y ver el potencial revolucionario que tenemos en nosotras, llegó la hora de sacarnos aquellos guantes y tomar la realidad con nuestras propias manos. ¡Basta ya! Vamos a vestirnos con nuestras propias ropas de lesbianas, seres disidentes de este patriarcado capitalista. Es importante tomar una actitud política contraria al casa-miento monogámico y reproductor de las normas heterosexuales. Nos-otras no aceptamos este sistema económico y entendemos que no tiene sentido el casa-miento que refrenda a través de nuestros propios cuerpos este sistema opresor.

Tenemos la sartén por el mango, y el mango también, para decir no a esta monogamia obligatoria que tanto nos oprime, cuya función básica es la reproducción del sistema del capital y de la propiedad privada, también en los cuerpos de las mujeres.

No hay movimiento posible sin la existencia de la utopia, objetivos y sueños. ¡Vamos adelante! El cielo está aquí para que volemos, soñemos y experimentemos la libertad que nos da el hecho de ser anormales- lesbianas polítikas.

Referencias bibliográficas

Beauvoir, Simone de. El segundo sexo, Ed. Gallimard, Paris, 1976.

Engels, Friederich El origen de la familia, la propiedad privada y el Estado. Editorial Progreso, Moscú.

Falquet, Jules e Curiel, Ochy (org)- El patriarcado desnudo, ed. Brecha Lesbica, 2005.

Tristán, Flora La Unión obrera, Ed. Fontanara.

Wittig, Monique. Ninguém nasce mulher in Em rebeldia – da bloga ao livro, Porto Alegre, 2009.


[1] Este texto foi apresentado no SENALE – Seminário Nacional de Lésbicas, acontecido em Porto Velho-RO entre os dias 8 e 11 de maio de 2010; na mesa que leva o mesmo nome.

Agradeço muito as contribuições neste texto da Clarisse Castilhos, minha companheira, a partir de tantas falas e debates que a gente vem construindo nas nossas vidas e ativismos e este texto é um pouco disso.

[2] artivista, lésbica feminista autônoma radikal e atuante no grupo mulheres rebeldes. radicaldesdelaraiz@yahoo.com.br

[3] A palavra indústria é utilizada, nesse caso, como atividade produtiva em geral, não como a concebemos atualmente.

[4] En El patriarcado al desnudo.

[5] Monique Wittig, Ninguém nasce mulher.

[6] Este texto fue presentado en el SENALE – Seminario Nacional de Lesbianas, acontecido en Porto Velho-RO entre los días 8 y 11 de mayo de 2010; en la mesa que lleva el mismo nombre.

Agradezco mucho las contribuciones de Clarisse Castilhos, mi compañera, con quien venimos compartiendo y construyendo tantas charlas y debates sobre y en nuestras vidas y activismos. Este texto es un poco eso.

[7] artivista, lesbiana feminista autónoma radikal y aktuante en el grupo mulheres rebeldes. radicaldesdelaraiz@yahoo.com.br

[8] Movimiento LGBTT - Lesbianas, Gays, Bisexuales, Travestis, Transexuales. En la última conferencia nacional, realizada en Brasilia por este movimiento, la “gran conquista” de las lesbianas, fue que el movimiento reconociera que la L va al frente.

[9] En El patriarcado al desnudo.

[10] Monique Wittig, Ninguém nasce mulher.